Nessa quinta-feira (29) Rebeca Andrade fez história em Tóquio ao se tornar a primeira ginasta brasileira a ganhar medalha em olimpíadas; entretanto, dia a dia de quem trabalha com ginástica artística no estado e outras modalidades não tradicionais ainda é repleto de dificuldades. Elas são relegadas ao esquecimento fora dos períodos olímpicos

Nessa quinta-feira (29) Rebeca Andrade fez história em Tóquio ao se tornar a primeira ginasta brasileira a ganhar uma medalha em olimpíadas. Na prova que define a atleta mais completa do mundo na modalidade, o individual geral, em que vale a soma das notas dos quatro aparelhos, a jovem de 22 anos, que cresceu na periferia de Guarulhos (SP), só não foi melhor que a americana Sunisa Lee. Terminou na 2ª colocação, com 57.298 pontos, conquistando a prata.

A vitória inédita de Rebeca traz status para a ginástica artística. A modalidade ganha, agora, destaque em todos os noticiários. Essa visibilidade, infelizmente, não se mantém constante. A sensação de muitos profissionais é que este esporte, com tantos talentos brasileiros como Daiane dos Santos, Daniele Hypolito, Jade Barbosa, Flávia Saraiva e Caio Souza é colocado em um baú empoeirado ao fim de cada olimpíada e dele só é retirado após um longo hiato de quatro anos.

Praticante amador de ginástica artística e apaixonado por esporte, o professor de educação física Tiago Gusmão, acredita, por exemplo, que o estigma de que o Brasil é o país do futebol ainda contribui para que outros esportes menos tradicionais fiquem relegados ao esquecimento. Para sanar um pouco dessa lacuna, ele decidiu fundar, em agosto de 2016, o Centro de Treinamento Amigos do Esporte, cujo objetivo é aumentar o acesso de crianças e adolescentes a modalidades não populares. Apesar de 92% dos pequenos atletas estarem matriculados na ginástica artística, o CT é referência também em judô adulto e infantil a partir dos 3 anos. A escola conta com dois ginásios nos bairros Padre Eustáquio e Buritis, além de uma unidade na Pampulha. Todas atendem, juntas, quase 500 alunos. “Começamos com 20 em 2016. Nossa expectativa é chegar a 700 até o final do ano, além de uma nova casa nas adjacências do bairro Cidade Nova, região nordeste de Belo Horizonte”, conta.

Ainda de acordo com Tiago, o Amigos do Esporte desenvolve paralelamente dois projetos: O primeiro, de caráter educacional e inclusivo, visa oferecer o ensino esportivo para crianças que gostam dos esportes que o local oferece, independentemente de quem seja o aluno. “Recebemos autistas, pessoas com síndrome de Down, meninos e meninas com sobrepeso, que talvez seriam excluídos em modalidades coletivas. Nós, ao contrário, entendemos a força transformadora dos esportes individuais”. O fundador do CT também ressalta a diversidade de públicos que frequenta os ginásios: desde crianças que moram em aglomerados àquelas que chegam no local com uma BMW, acompanhadas dos pais. “O nosso intuito é permitir o acesso democrático a todos, já que hoje, em BH, um menino ou menina com pouco ou muito dinheiro tem as mesmas dificuldades de praticar a ginástica artística, justamente porque é uma modalidade não difundida no país, nas quadras poliesportivas, nas escolas, sejam elas de bairros nobres ou periféricos”. A proposta ficou tão evidente que hoje a empresa tem alunos dos mais diversos lugares, vindos, inclusive, de cidades da região metropolitana como Esmeraldas, Pedro Leopoldo e Vespasiano. “Tínhamos, por exemplo, uma criança que viajava toda semana por três horas de Itatiaiuçu para BH, só para participar das nossas aulas.”

O outro braço de atuação do CT Amigos do Esporte é o projeto Atleta, instituído em 2017, focado exclusivamente no alto rendimento do aluno, com treinos que variam de seis a nove horas por semana. Ele é voltado para crianças e adolescentes que sonham em se profissionalizar e competir em torneios oficiais. Para participar, os interessados são submetidos a uma seletiva que avalia eficiência, técnica e preparo físico.

Dificuldades

Apesar da grande demanda de interessados na ginástica artística, o CT esbarra na falta de patrocínios para o projeto de formação de atletas. Ele é mantido financeiramente por doações de organizações privadas ou de apoiadores, além do pagamento mensal dos associados, pais dos alunos [R$ 190 pagos pela família, via boleto]. “Quando buscamos financiamento, muitas empresas alegam que já estão investindo em grandes clubes de futebol ou nos projetos sociais desses clubes. Com isso sempre ficamos em uma situação desfavorável”, conta Tiago acrescentando que ainda existe uma desvalorização evidente dos esportes menos populares. “Infelizmente ainda somos mais observados apenas em períodos de olimpíadas. Costumamos, inclusive, brincar que o espírito olímpico para nós é melhor que o natalino”.

A falta de mão de obra é outro entrave do projeto. Segundo Tiago, é visível a carência de professores formados em educação física interessados em esportes que não são tradicionais. “Para sanar esse déficit, estamos com um projeto para capacitação de estagiários, permitindo assim que eles se formem professores. É uma forma de criarmos a nossa própria mão de obra.”

Vidas que mudaram por meio dos esportes não tradicionais

         A história do pequeno Otávio Augusto Ricarte, 9 anos, contada pela mãe, Bárbara Ricarte, 29, ilustra com fidelidade a capacidade de inclusão que marca a essência do CT Amigos do Esporte. Depois de uma tentativa frustrada de matricular o filho, com síndrome do espectro autista, em uma escolinha de futebol, em Belo Horizonte, encontrou no judô, um oásis. “No futebol ele não foi bem recebido, tanto pelos colegas quanto pelo treinador. Percebi que procuravam atletas prontos e na verdade ninguém nasce pronto. Foi aí que descobri o Amigos do Esporte. Ao chegar aqui expus minha situação, falei que não queria um lugar onde meu filho fosse só mais um. O Otávio foi prontamente acolhido e os resultados positivos com as aulas [de judô] logo começaram a aparecer”.

Segundo Bárbara, desde que começou a praticar o esporte marcial, em janeiro, o menino tem ficado mais calmo e organizado. “Ele agora obedece regras, não só no CT como em casa e quando não posso levá-lo, chora para ir. E sempre que vai, é muito bem recebido por todos, tanto pelas outras crianças quanto pelos professores. É um local de total inclusão, onde todos são tratados com igualdade e as peculiaridades de cada um respeitadas”.

Quem também enxergou nos esportes não convencionais um fator de desenvolvimento para a filha foi a administradora Thais Araújo, 44 anos. Ela, que na infância já havia praticado ginástica artística, resolveu matricular a filha Isabela, 9, no CT, mas não com o intuito de profissionalizar a garota e sim, proporcionar diversão à menina. Por ser intolerante a glúten, quando começou a fazer as aulas, em 2017, a pequena atleta estava bem debilitada. Hoje, passados quase cinco anos que o esporte entrou na vida da criança, a mãe afirma que a garota ganhou equilíbrio, força e atualmente encara os exercícios de forma mais séria. “Ela vem se destacando de forma continua. Quer passar de nível, melhorar a cada dia mais. Acho que isso é fruto do acolhimento que recebeu por todos desde que aqui chegou”, ressalta.

O frenesi que o esporte provocou na vida de Isabela foi tamanho que até Thais decidiu voltar para a ginástica artística, cujas aulas interrompeu na infância. Desde 2018 ela integra a turma de adultos do ginásio no bairro Buritis. “Já fiquei até famosa no meu trabalho com os vídeos que posto das minhas acrobacias nas redes sociais”, conta sem deixar de pedir apoio para o esporte. “As escolas, de modo geral, não são muito abertas à ginástica artística. É uma modalidade que traz inúmeros benefícios. Só quem faz e se envolve, percebe o quanto é transformador. As marcas e empresas não podem lembrar desse esporte só por causa da prata da Rebeca Andrade.”

Centro de Treinamento Amigos do Esporte

Ginásio 1: Unidade Buritis: Avenida Barão Homem de Melo, 4324 – 7º andar.

Ginásio 2: Unidade Padre Eustáquio: R. Coronel José Benjamim, 128 – Padre Eustáquio

Unidade Pampulha: Rua Sãozinha Baggio Coutinho, 120 – Itapoã – Belo Horizonte – MG.

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